Como é difícil ir de encontro à sua criação! Como é complicado assumir como uma desvantagem aquilo que sempre me foi elogio. Na minha vida ocidental, o silêncio sempre teve ares de punição. O silêncio é para provas, nunca para festas. Ruas silenciosas são ruas perigosas. O silêncio sempre me foi triste, sempre me foi apático, sempre silenciado pelo rádio ou por pensamentos. Ah, os pensamentos. "Pense rápido, seja esperta, tire vantagem, se imponha!". Com que cores devo pintar o que me foi sempre qualidade até que suas reais cores me mostrem que foram sempre defeitos?
Observo o mundo ao meu redor e só enxergo barulho, ego, dedo em riste. Eu, eu e eu. Até nos meios mais holísticos, ninguém deixa o palestrante falar. Há sempre algo a dizer, mesmo que descontextualizado; há sempre uma opinião a dar, mesmo quando ela sequer foi pedida. Observo e me vejo, envergonhada, em cada voz que se levanta, em cada piada feita seguida do inevitável olhar ao redor em busca de aprovação. "Você ri comigo? Você me aceita?"
Do meu canto, buscando ser inodora e incolor, querendo silenciar e falar baixo, agarrando-me ao papel de aprendiz que nunca nos parece bom o suficiente, sinto meus esforços enfraquecidos e uma inevitável raiva de quem não entendeu que é preciso calar. Mas essa raiva não é deles, a raiva é minha e ela só me mostra o auto-trabalho, o mais dificil de todos, está apenas no começo. Eles me mostram que a busca pela paz passa pela dor.


